Conheça o projeto "Direito à Memória e à Verdade"
Para acessar o livro clique aqui
São tantas lutas inglórias
são histórias que a história
qualquer dia contará
de obscuros personagens
as passagens, as coragens
são sementes espalhadas nesse chão
de Juvenais e Raimundos
tantos Julios de Santana
uma crença num enorme coração
dos humilhados e ofendidos
explorados e oprimidos
que tentaram encontrar a solução
São cruzes sem nomes, sem corpos, sem datas
Memória de um tempo onde lutar por seu direito
é um defeito que mata
(trecho da música Legião dos Esquecidos, Gonzaguinha)
O projeto Direito à Memória e à Verdade da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República iniciou em 29 de agosto de 2006 com a abertura da exposição fotográfica “Direito à Memória e à Verdade – A ditadura no Brasil 1964 - 1985“, no hall da taquigrafia da Câmara dos Deputados, em Brasília. O projeto tem o objetivo de recuperar e divulgar o que aconteceu nesse período da vida republicana brasileira. São registros de um passado marcado pela violência e por violações de direitos humanos. Disponibilizar esse conhecimento é fundamental para o País construir instrumentos eficazes e garantir que esse passado não se repita nunca mais.
Atualmente o projeto tem quatro linhas de atuação:
Livro-relatório da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos
Produzido a partir dos processos encaminhados a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP/SEDH), o livro conta história das vítimas da ditadura no Brasil. A trajetória de operários, estudantes, profissionais liberais e camponeses que se engajaram em organizações de esquerda para combater o regime militar aparece agora como documento oficial do Estado brasileiro.
O livro-relatório tem como objetivo contribuir para que o Brasil avance na consolidação do respeito aos Direitos Humanos, sem medo de conhecer a sua história recente. Ao registrar para os anais da história e divulgar o trabalho realizado pela CEMDP ao longo de 11 anos, a publicação representa novo passo numa caminhada de quatro décadas. Nessa jornada, uniram-se para um esforço conjunto
brasileiros que se opunham na arena política imediata. Sob a gestão de Nelson Jobim no Ministério da Justiça, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, o Estado brasileiro reconheceu sua responsabilidade frente à questão dos opositores que foram mortos pelo aparelho repressivo do regime militar. Papel decisivo nessa conquista tiveram os familiares dos mortos e desaparecidos, com sua perseverança e tenacidade, e o futuro ministro José Gregori, então chefe de Gabinete do Ministério da Justiça.
O Executivo Federal preparou um projeto que o parlamento brasileiro transformou em Lei em dezembro de 1995, criando uma Comissão Especial com três tarefas: reconhecer formalmente caso por caso, aprovar a reparação indenizatória e buscar a localização dos restos mortais que nunca foram entregues para sepultamento. A Comissão Especial manteve uma coerente linha de continuidade atravessando, até o momento, quatro mandatos presidenciais. Durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva, a Lei foi ampliada em sua abrangência e praticamente se concluiu o exame de todos os casos apresentados.
Uma dupla face deste Brasil que rompe o século 21 – com sonhos e desafios novos – saltará à vista dos leitores deste livro, sejam eles vítimas do período ditatorial, sejam eles apoiadores daquele regime, sejam juízes, procuradores, parlamentares, autoridades do Executivo, jornalistas, estudantes, trabalhadores, cidadãos e cidadãs de todas as áreas. Uma face é a do país que vem fortalecendo suas instituições democráticas há mais de 20 anos. É a face boa, estimulante e promissora de uma nação que parece ter optado definitivamente pela democracia, entendendo que ela representa um poderoso escudo contra os impulsos do ódio e da guerra, que sempre se alimentam da opressão.
A leitura também mostrará uma outra face. É aquela percebida nos obstáculos que foram encontrados por quem exige conhecer a verdade, com destaque para quem reclama o direito milenar e sagrado de sepultar seus entes queridos. Na história da humanidade, os povos mais sanguinários interrompiam suas batalhas em curtas tréguas para troca de cadáveres, possibilitando a cada exército, tribo ou nação prantear seus mortos, fazendo do funeral o encerramento simbólico do ciclo da vida. Nenhum espírito de revanchismo ou nostalgia do passado será capaz de seduzir o espírito nacional, assim como o silêncio e a omissão funcionarão, na prática, como barreira para a superação de um passado que ninguém quer de volta.
O livro foi lançado, em 29 de agosto de 2008, data que marcou os 28 anos da publicação da Lei de Anistia, em 1979, sinalizando a busca de concórdia, do sentimento de reconciliação e dos objetivos humanitários que moveram os 11 anos de trabalho da Comissão Especial.
A tiragem inicial de 3.560 exemplares foi distribuída para os familiares de mortos e desaparecidos citados no livro, bibliotecas públicas e entidades ligadas ao tema.
O estado de Pernambuco fez uma edição para distribuir para escolas e instituições que foi lançado em abril de 2008.
Atualmente, em parceria com o MEC – por meio do Projeto República da UFMG – o livro está sendo transformado em CD para ser distribuído para todas as escolas da rede pública do país. Esse CD vai ampliar o conteúdo do livro, com músicas, depoimentos, filmes e outros documentos da época.
Memoriais “Pessoas Imprescindíveis”
Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis
(Bertold Brecht)
Um povo demonstra sua grandiosidade quando preserva na memória não somente sua história de honra e brios, como também os fatos que demonstrem suas contradições e conflitos. Com o objetivo de recuperar um pouco da história dos brasileiros e brasileiras que deram suas vidas na luta pela democracia no país, o projeto Direito à Memória e à Verdade criou os memoriais “Pessoas Imprescindíveis”. Os painéis e esculturas buscam unir forma e conteúdo para dar aos visitantes uma visão – mesmo que sintética – do que foram os “Anos de Chumbo” no país. Feitos em vidro, os painéis trazem imagens dos homenageados e de situações que representam a repressão violenta do regime às idéias contrárias à perda do estado de direito no período da ditadura militar no Brasil. O aço aplicado sobre o vidro com os nomes vazados remete para a brutalidade e frieza e para o ambiente claustrofóbico das prisões e dos porões pelos quais passaram. Por ser um metal tosco relaciona também o uso da força e das armas como forma de dominação. Vidro e aço. Transparência e brutalidade. Humanidade e primarismo. Delicadeza e violência. Um arcabouço sobre a verdade e a vida que se mostra por meio das fotos de época e a figura dos homenageados, neste caso, simbolizando as mais de 400 pessoas assassinadas, torturadas e desaparecidas.
Em 9 de novembro de 2006, o Centro Acadêmico Oswaldo Cruz (CAOC) e a SEDH/PR, homenageou os estudantes Antonio Carlos Nogueira Cabral e Gelson Reicher, mortos durante o período da ditadura militar. O monumento está localizado no subsolo da Faculdade de Medicina da USP, em frente a sede do Centro Acadêmico.
Em 1964, militares tomaram o poder com a promessa de apaziguar uma suposta desordem política do país. Foram tempos difíceis. Apesar da dura repressão e do cerceamento da liberdade de expressão, manifestações civis marcaram o período. Entre os estudantes, não foi diferente. Muitos deles formavam a linha de frente de movimentos de luta armada contra o Regime, como a Ação Libertadora Nacional (ALN), que tinha entre seus integrantes alguns estudantes da Faculdade de Medicina da USP, dentre eles Gelson Reicher e Antônio Carlos Nogueira Cabral.
Diretores do CAOC, Gelson e Cabral engajaram-se na luta contra a repressão, sendo presos, torturados e mortos. Deram suas vidas na busca de um Brasil livre.
ANTONIO CARLOS NOGUEIRA CABRAL (1948 – 1972)
Estudante de medicina da Universidade de São Paulo, presidente do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz e militante da Ação Libertadora Nacional – ALN, Cabral foi morto aos 23 anos. Na versão oficial, a morte teria ocorrido após tiroteio quando o estudante tentou resistir à prisão, na casa em que morava. A vizinhança afirma que não houve tiroteio algum. O corpo de Antônio Carlos entrou no IML pela guia do DOPS, como desconhecido, morto ao reagir à prisão. Mais tarde, identificado por sua irmã, Cabral foi entregue à família no dia 19 de abril de 1972 em caixão lacrado com ordens expressas de não abri-lo.
GELSON REICHER (1949 – 1972)
Estudante de Medicina da Universidade de São Paulo e militante da Ação Libertadora Nacional - ALN, Reicher foi fuzilado em 20 de janeiro de 1972, aos 23 anos, por policiais pertencentes ao DOI-CODI/ SP. Gelson Reicher foi enterrado no Cemitério Dom Bosco, em Perus, sob o nome falso de Emiliano Sessa. O Relatório do Ministério da Marinha diz que Gelson “morreu em intenso tiroteio com agentes de segurança no dia 20 de janeiro de 1972, na altura do n° 800 da Av. República do Líbano, São Paulo, às 23:30 horas”. Conforme levantado pela Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos ficou comprovada a prática de tortura após os tiros, o que levou Reicher ao falecimento.
No dia 07 de dezembro de 2007, o Centro Acadêmico Manoel de Abreu, da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (rua Martinico Prado, 168) e a SEDH/PR inauguraram o memorial em homenagem a Chael Charles Schereier, 23 anos e Hiroaki Torigoe, 28 anos, dois estudantes da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, mortos durante a ditadura militar no Brasil.
Chael e Hiroaki decidiram pegar em armas depois que o AI-5, em dezembro de 1968, decretou o fim das liberdades democráticas no país. Foram mortos em datas e situações diferentes, por defenderem os mesmos ideais de liberdade.
CHAEL CHARLES SCHEREIER (1946 – 1969)
Paulista da capital cursava o 5º ano da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Integrante da executiva da União Estadual dos Estudantes participou ativamente das atividades do Centro Acadêmico e das passeatas históricas de 1968. Com a decretação do AI-5, em dezembro de 68, e o fim das liberdades democráticas, os brasileiros ficaram proibidos de se reunir nas ruas e as manifestações de qualquer ordem foram banidas. Uma parcela dos que lutavam contra a ditadura decidiu pegar em armas. Chael passou a atuar na clandestinidade. Foi preso em 21/11/1969, no Rio de Janeiro juntamente com Maria Auxiliadora Lara Bracelos, a Dora, e Antônio Roberto Espinoza, todos integrantes da organização Vanguarda Armada Revolucionária Palmares. Foram levados para o Batalhão da Polícia do Exército e Chael, aos 23 anos, morreu, no dia seguinte, vítima das torturas sofridas conforme depoimento de Dora e Espinoza. A versão oficial foi de morte por ataque cardíaco depois de reagir à prisão. O corpo do estudante foi entregue à familia em caixão lacrado. Militares acompanharam o traslado para São Paulo, proibindo a realização do ritual judaíco de sepultamento, que inclui um banho no cadáver, para que as verdadeiras circuntâncias de sua morte não ficassem evidentes.
HIROAKI TORIGOE (1944 – 1972)
Paulista de Lins, cursava o 4º ano da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Militava ativamente nas manifestações contra a ditadura militar instaurada em 1964. Com a decretação do AI-5 que fechou o Congresso Nacional, as Assembléias Legislativas, as Câmaras de Vereadores e o fim de toda e qualquer liberdade, Hiroaki atuou na clandestinidade, entre 1969 e 1970, ligado a organização ALN. Foi ferido e preso pelo DOI-CODI/SP, no dia 5 de janeiro de 1972, no bairro de Santa Cecília, em São Paulo. Tinha 28 anos de idade. Segundo a versão oficial foi ferido em tiroteio e morreu a caminho do hospital. No entanto, a fotografia de seu corpo localizada nos arquivos secretos do DOPS/SP denunciou as torturas a que foi submetido. Enterrado com nome falso, no Cemitério Dom Bosco, em Perus, seus restos mortais nunca foram resgatados. Num pequeno oratório na casa da familia, a foto de Hiroaki busca suprir a ausência de suas cinzas.
Em 28 de março de 2008, na Praça Ana Amélia (entre a av. Churchill e a rua Santa Luzia), no centro do Rio de Janeiro, foi inaugurada uma escultura em homenagem ao estudante Edson Luiz Lima Souto, morto pela ditadura militar, e a todos os que lutaram contra a ditadura militar e pela democracia no Brasil. A homenagem foi uma parceria entre a SEDH/PR, Prefeitura do Rio de Janeiro, União Nacional dos Estudantes – UNE – e União Brasileira dos Estudantes Secundaristas – UBES.
EDSON LUIZ LIMA SOUTO (1950 - 1968)
A morte do secundarista Edson Luiz Lima Souto ficou como grande marco histórico das mobilizações estudantis de 1968, que culminaram com a edição do AI-5 em dezembro do mesmo ano. O AI-5 decretou o fim das liberdades democráticas e das manifestações de qualquer ordem. Com 18 anos recém-completados, 1m59 de altura e armado apenas com o sonho de conquistar condições dignas na escola onde estudava, Edson foi morto com um tiro certeiro no peito, disparado à queima-roupa por um tenente da PM, em 28/03/1968, no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro. Indignados, seus colegas não permitiram que o corpo fosse levado ao IML, conduzindo-o para a Assembléia Legislativa em passeata. Lá, sob cerco de polícias civis e militares, foi realizada a autópsia e aconteceu o velório. O caixão chegou ao cemitério João Batista nos braços de milhares de estudantes.
Nascido em Belém do Pará, Edson era filho de Maria de Belém Souto Rocha. A família mesmo sendo muito pobre se empenhou para enviá-lo ao Rio de Janeiro, a fim de que concluísse os estudos secundários. Matriculou-se no Instituto Cooperativo de Ensino. Falava pouco e ainda estava meio desconfiado, mas colaborava com o movimento colando jornais murais. Estava programada mais uma passeata e Edson resolveu jantar mais cedo, naquele 28 de março, para ter tempo de preparar alguns cartazes. Segurava a bandeja na mão quando começou uma correria e ele foi atingido por um cassetete no ombro. Os policiais militares, que tinham invadido o local, começaram a atirar. Os estudantes armaram-se de paus e pedras para responder. Foi quando Edson caiu. Nesse dia o calabouço fechou para sempre.
Em 18 de julho de 2008, no largo de Osasco (SP) foi inaugurado o memorial em homenagem a três trabalhadores mortos durante a ditadura militar no Brasil. São eles: José Campos Barreto, João Domingues da Silva e Dorival Ferreira. Os três foram operários e militantes de organizações de esquerda. José e João Domingues, do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco e Dorival, do Sindicato da Construção Civil de Osasco. A obra foi feita em parceria com o Sindicato dos Metalúrgicos e prefeitura de Osasco para celebrar os 40 anos da greve que mobilizou 12 mil trabalhadores de algumas das principais fábricas da cidade, em 1968. Entrou para a história como “Greve de Osasco”. O movimento tinha como objetivo afrontar a ditadura no país e melhorar as condições de vida dos trabalhadores.
JOSÉ CAMPOS BARRETO (1946-1971)
José Campos Barreto foi morto em 17/09/1971, em Brotas de Macaúbas (BA), junto com o capitão Carlos Lamarca. Mais velho dos sete filhos de José de Araújo Barreto e Adelaide Campos Barreto, em 1964 mudou-se para São Paulo onde serviu o Exército, no quartel de Quitaúna. Estudou em Osasco, no Colégio Estadual e Escola Normal Antonio Raposo Tavares, tornando-se presidente do Círculo Estudantil Osasquense. Trabalhou como operário e foi importante liderança no Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco. Na Cobrasma, quando a fábrica foi cercada durante a greve de 1968, Barreto, de cima de um vagão, discursou aos soldados explicando as razões do movimento e conseguindo paralisar a tropa por um momento. Em seguida, ao ameaçar incendiar um tanque de combustível da fábrica, fez com que a tropa hesitasse, permitindo que muitos operários conseguissem escapar da polícia. Mesmo assim, cerca de 400 foram detidos. Espancado já no ato da prisão, José Barreto passou 98 dias entre os cárceres do DEIC e do DOPS, antes de ser libertado. Militou na VPR e depois no MR-8, na Bahia. Com a chegada de Lamarca ao Estado, foi designado para acompanhá-lo e com ele ficou até a morte. Lamarca e Barreto foram mortos por agentes do DOI-CODI da 6ª Região Militar, chefiados por Nilton de Albuquerque Cerqueira. A família ainda tentou localizar o corpo de Barreto, mas não teve informação sobre o local onde poderia estar enterrado e nem conseguiu seu atestado de óbito.
JOÃO DOMINGUES DA SILVA (1949-1969)
Os militantes da VAR-Palmares, João Domingues da Silva e Fernando Borges de Paula Ferreira, o Fernando Ruivo, foram interceptados por policiais civis na noite do dia 29/07/69, em São Paulo. Fernando teria morrido imediatamente e João Domingues, mesmo ferido, conseguiu escapar, refugiando-se na casa de sua irmã, em Osasco, onde foi preso no mesmo dia. Filho de Eliza Joaquina Maria da Silva e Antônio José da Silva, o operário João Domingues apoiou ativamente a greve de Osasco, em julho de 1968, que teve seu irmão, Roque Aparecido da Silva, como um dos principais líderes. A partir de então, por ser ameaçado constantemente de prisão, ingressou na VPR passando a atuar na clandestinidade. Nascido em Sertanópolis (PR), desde os 10 anos João Domingues ajudava o pai no trabalho com o gado. Aos 12 anos, trabalhava no matadouro de Ibiporã (PR) e, aos 13, num açougue, em Osasco. Militou nas organizações de esquerda Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e VAR-Palmares. Ao ser preso, foi levado para o Hospital das Clínicas, onde foi submetido a uma delicada cirurgia. Mesmo correndo risco de vida, agentes do DEIC – Departamento Estadual de Investigações Criminais – transportaram-no para o Hospital Geral do Exército, onde iniciaram um processo de interrogatório e torturas que culminou com a sua morte, em 23 de setembro.
DORIVAL FERREIRA (1931-1970)
Filho de Alvina Ferreira e Domingos Antonio Ferreira, nascido em Osasco (SP), Dorival militou na Ação Libertadora Nacional (ALN). Operário, era filiado ao Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de São Paulo, do qual foi candidato à presidência em 1965. Casado, pai de seis filhos, Dorival Ferreira morreu aos 38 anos, após ser preso pelos agentes do DOI-CODI/SP, que invadiram a tiros sua casa em Osasco. Na versão oficial, Dorival morreu em tiroteio, o que foi desmentido pelas provas que vieram do IML, da perícia técnica e do DOPS. Nas declarações do pai de Dorival – Domingos Antônio Ferreira –, prestadas ao delegado Edsel Magnotti, consta que ao chegar na casa do filho só encontrou policiais que lhe informaram da prisão, sem dizer para onde ele fora levado. Uma ficha originária do DOPS, com data de 30/04/1970, informa que Dorival Ferreira morreu em 03/04/1970, isto é, no dia seguinte à sua prisão.
Em 16 de agosto de 2008, no Parque do Zizo (município de São Miguel Arcanjo, SP) foi inaugurada uma escultura em homenagem ao estudante Luiz Fogaça Balboni, o Zizo - morto em 24 de setembro de 1969, durante o período da ditadura. O evento foi uma parceria entre a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República e a ONG APAZ - Associação Parque do Zizo. Participaram da homenagem, além de parentes, familiares de mortos e desaparecidos e representantes de entidades ligadas ao tema, o ministro Paulo Vannuchi e a senadora Marina Silva.
SOBRE O ZIZO
Luiz Fogaça Balboni nasceu em Itapetininga, em 25 de maio de 1945. Estudante da Escola Politécnica da USP, onde cursou até o 3° ano, trabalhava como professor e desenhista da Empresa Geotécnica. Integrou a organização de esquerda Ala Vermelha até março de 1969, quando passou a militar na Ação Libertadora Nacional - ALN. Foi morto em 24 de setembro de 1969 em emboscada montada pelos delegados Sérgio Paranhos Fleury, Rubem Tudunduva e Firminiano Pacheco, do DOPs, nas proximidades da avenida Paulista.
Passou a infância em São Miguel Arcanjo (SP), onde sua história se perpetua hoje no “Parque do Zizo” (seu apelido familiar), uma área de preservação ambiental que soma 300 hectares de Mata Atlântica original, implantada por seus irmãos com o dinheiro da indenização aprovada pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP).
Sobre o Parque do Zizo
A ONG APAZ - Associação Parque do Zizo conserva e mantém há mais de 10 anos um espaço dentro do maior remanescente da Mata Atlântica do país nos municípios de São Miguel Arcanjo e Tapiraí, estado de São Paulo, denominado Parque do Zizo. O projeto “Parque do Zizo” tem por objetivo abrir uma nova perspectiva para o desenvolvimento sustentável de áreas de conservação. O modelo desenvolvido ao longo dos anos está apoiado em dois pilares: na formação do novo, dos jovens, trabalhando conceitos de cidadania via educação ambiental, e na observação de aves e de outros seres vivos que habitam a floresta, catalogando sua presença e estudando seus hábitos.
Mais de 670 crianças já participaram do projeto “Aprendendo com a Natureza”, projeto executado em parceria com a Petrobras, onde a mudança nas atitudes e percepções em relação utilização de recursos naturais diretamente extraídos da natureza e no melhor tratamento aos animais silvestres são ensinamentos para sempre. Todos eles tiveram aulas sobre meio ambiente e cidadania.
Mais de 250 espécies de aves já foram identificadas nas áreas do Parque do Zizo, sendo 10 delas uma verdadeira raridade para os observadores de pássaros. Foi localizada também uma família de mono carvoeiros, o maior primata das Américas, que está sendo alvo de estudos e acompanhamento, via parceria com experientes biólogas. Onça parda, jaguatiricas, cachorros selvagens, e toda sorte de animais são vistos e catalogados no Parque, mostrando a riqueza da Mata Atlântica, na sua versão mais original.
EXPOSIÇÃO “A DITADURA NO BRASIL 1964 – 1985”
A exposição traz uma ambientação visual que conduz o público em uma espécie de “viagem no tempo”. Traz de volta a lembrança aos que viveram os fatos retratados e traduz aos jovens um pouco do clima vivenciado nesse período tão importante na história social e política brasileira. Recupera, de maneira exclusiva, desde os primeiros momentos do Golpe de Estado que mergulhou o país numa ditadura de 21 anos, até os grandes comícios populares das “Diretas Já”. Imagens marcantes dos tanques militares na frente do Congresso Nacional, as passeatas estudantis, a resistência dos diversos grupos da sociedade civil, a censura de documentos, a violência, prisões e torturas estão expostas em grandes painéis que colocam o espectador dentro dos acontecimentos. Junto, todos os fatos ocorridos nessa época são recuperados em um texto em ordem cronológica.
“A ditadura no Brasil – 1964-1985”, tem por objetivo registrar o que representou a ditadura no país, para que o maior número de cidadãos possam ter acesso ao material, excelente instrumento de valorização da história brasileira; resgatar a memória dos que viveram o período militar com o intuito de provocar reflexão sobre os acontecimentos e sensibilizar os jovens de hoje, a respeito do que ocorreu durante os anos de chumbo no país, a partir de uma perspectiva da cronologia histórica e visual incluindo fotos e documentos, inéditos em sua maioria. A exposição tem 90 metros de comprimento por 1,80 de altura. Trata-se de um formato flexível podendo ser dividida em blocos de metragem menor e variada.
Concebida originalmente para comemorar os 27 anos da promulgação da Lei da Anistia no Brasil, foi aberta ao público pela primeira vez, em agosto de 2006, no corredor de acesso ao plenário da Câmara dos Deputados, em Brasília.
Em 2007 numa parceria entre a SEDH/PR, Caixa Econômica Federal e Petrobrás, ela foi aberta ao público de quatro capitais brasileiras - Curitiba, Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador -, nos espaços culturais da Caixa, em datas alternadas, de maio a agosto de 2007.
Em dezembro de 2007 – quando se comemorou os 59 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos – foi realizada uma nova edição da exposição em oito capitais – Belém, Fortaleza, Recife, Belo Horizonte, Goiânia, Florianópolis, Vitória e Porto Alegre.
Em 2008 a mostra fotográfica já foi instalada em Osasco, na Universidade Federal de Goiás, em Goiânia, na Universidade Federal de Santa Maria (RS), nas celas do antigo DOPS, em São Paulo, em Buenos Aires (AR), em La Plata (AR), no terreno da sede da UNE, no Rio de Janeiro, na Câmara Municipal de Cachoeira do Sul (RS) e no Novo Shopping em Ribeirão Preto (SP).
EXPOSIÇÃO “APOLÔNIO DE CARVALHO – VALE A PENA SONHAR”
A exposição “Vale a Pena Sonhar” conta a trajetória de Apolônio de Carvalho, um revolucionário que lutou contra duas ditaduras no Brasil, na Guerra Civil Espanhola e na Resistência Francesa. Essa exposição foi colocada em 2007, no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. No próximo dia 23 de setembro, aniversário de três anos da morte de Apolônio, a exposição será aberta em Recife (PE).
São tantas lutas inglórias
são histórias que a história
qualquer dia contará
de obscuros personagens
as passagens, as coragens
são sementes espalhadas nesse chão
de Juvenais e Raimundos
tantos Julios de Santana
uma crença num enorme coração
dos humilhados e ofendidos
explorados e oprimidos
que tentaram encontrar a solução
São cruzes sem nomes, sem corpos, sem datas
Memória de um tempo onde lutar por seu direito
é um defeito que mata
(trecho da música Legião dos Esquecidos, Gonzaguinha)
O projeto Direito à Memória e à Verdade da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República iniciou em 29 de agosto de 2006 com a abertura da exposição fotográfica “Direito à Memória e à Verdade – A ditadura no Brasil 1964 - 1985“, no hall da taquigrafia da Câmara dos Deputados, em Brasília. O projeto tem o objetivo de recuperar e divulgar o que aconteceu nesse período da vida republicana brasileira. São registros de um passado marcado pela violência e por violações de direitos humanos. Disponibilizar esse conhecimento é fundamental para o País construir instrumentos eficazes e garantir que esse passado não se repita nunca mais.
Atualmente o projeto tem quatro linhas de atuação:
Livro-relatório da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos
Produzido a partir dos processos encaminhados a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP/SEDH), o livro conta história das vítimas da ditadura no Brasil. A trajetória de operários, estudantes, profissionais liberais e camponeses que se engajaram em organizações de esquerda para combater o regime militar aparece agora como documento oficial do Estado brasileiro.
O livro-relatório tem como objetivo contribuir para que o Brasil avance na consolidação do respeito aos Direitos Humanos, sem medo de conhecer a sua história recente. Ao registrar para os anais da história e divulgar o trabalho realizado pela CEMDP ao longo de 11 anos, a publicação representa novo passo numa caminhada de quatro décadas. Nessa jornada, uniram-se para um esforço conjunto
brasileiros que se opunham na arena política imediata. Sob a gestão de Nelson Jobim no Ministério da Justiça, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, o Estado brasileiro reconheceu sua responsabilidade frente à questão dos opositores que foram mortos pelo aparelho repressivo do regime militar. Papel decisivo nessa conquista tiveram os familiares dos mortos e desaparecidos, com sua perseverança e tenacidade, e o futuro ministro José Gregori, então chefe de Gabinete do Ministério da Justiça.
O Executivo Federal preparou um projeto que o parlamento brasileiro transformou em Lei em dezembro de 1995, criando uma Comissão Especial com três tarefas: reconhecer formalmente caso por caso, aprovar a reparação indenizatória e buscar a localização dos restos mortais que nunca foram entregues para sepultamento. A Comissão Especial manteve uma coerente linha de continuidade atravessando, até o momento, quatro mandatos presidenciais. Durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva, a Lei foi ampliada em sua abrangência e praticamente se concluiu o exame de todos os casos apresentados.
Uma dupla face deste Brasil que rompe o século 21 – com sonhos e desafios novos – saltará à vista dos leitores deste livro, sejam eles vítimas do período ditatorial, sejam eles apoiadores daquele regime, sejam juízes, procuradores, parlamentares, autoridades do Executivo, jornalistas, estudantes, trabalhadores, cidadãos e cidadãs de todas as áreas. Uma face é a do país que vem fortalecendo suas instituições democráticas há mais de 20 anos. É a face boa, estimulante e promissora de uma nação que parece ter optado definitivamente pela democracia, entendendo que ela representa um poderoso escudo contra os impulsos do ódio e da guerra, que sempre se alimentam da opressão.
A leitura também mostrará uma outra face. É aquela percebida nos obstáculos que foram encontrados por quem exige conhecer a verdade, com destaque para quem reclama o direito milenar e sagrado de sepultar seus entes queridos. Na história da humanidade, os povos mais sanguinários interrompiam suas batalhas em curtas tréguas para troca de cadáveres, possibilitando a cada exército, tribo ou nação prantear seus mortos, fazendo do funeral o encerramento simbólico do ciclo da vida. Nenhum espírito de revanchismo ou nostalgia do passado será capaz de seduzir o espírito nacional, assim como o silêncio e a omissão funcionarão, na prática, como barreira para a superação de um passado que ninguém quer de volta.
O livro foi lançado, em 29 de agosto de 2008, data que marcou os 28 anos da publicação da Lei de Anistia, em 1979, sinalizando a busca de concórdia, do sentimento de reconciliação e dos objetivos humanitários que moveram os 11 anos de trabalho da Comissão Especial.
A tiragem inicial de 3.560 exemplares foi distribuída para os familiares de mortos e desaparecidos citados no livro, bibliotecas públicas e entidades ligadas ao tema.
O estado de Pernambuco fez uma edição para distribuir para escolas e instituições que foi lançado em abril de 2008.
Atualmente, em parceria com o MEC – por meio do Projeto República da UFMG – o livro está sendo transformado em CD para ser distribuído para todas as escolas da rede pública do país. Esse CD vai ampliar o conteúdo do livro, com músicas, depoimentos, filmes e outros documentos da época.
Memoriais “Pessoas Imprescindíveis”
Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis
(Bertold Brecht)
Um povo demonstra sua grandiosidade quando preserva na memória não somente sua história de honra e brios, como também os fatos que demonstrem suas contradições e conflitos. Com o objetivo de recuperar um pouco da história dos brasileiros e brasileiras que deram suas vidas na luta pela democracia no país, o projeto Direito à Memória e à Verdade criou os memoriais “Pessoas Imprescindíveis”. Os painéis e esculturas buscam unir forma e conteúdo para dar aos visitantes uma visão – mesmo que sintética – do que foram os “Anos de Chumbo” no país. Feitos em vidro, os painéis trazem imagens dos homenageados e de situações que representam a repressão violenta do regime às idéias contrárias à perda do estado de direito no período da ditadura militar no Brasil. O aço aplicado sobre o vidro com os nomes vazados remete para a brutalidade e frieza e para o ambiente claustrofóbico das prisões e dos porões pelos quais passaram. Por ser um metal tosco relaciona também o uso da força e das armas como forma de dominação. Vidro e aço. Transparência e brutalidade. Humanidade e primarismo. Delicadeza e violência. Um arcabouço sobre a verdade e a vida que se mostra por meio das fotos de época e a figura dos homenageados, neste caso, simbolizando as mais de 400 pessoas assassinadas, torturadas e desaparecidas.
Em 9 de novembro de 2006, o Centro Acadêmico Oswaldo Cruz (CAOC) e a SEDH/PR, homenageou os estudantes Antonio Carlos Nogueira Cabral e Gelson Reicher, mortos durante o período da ditadura militar. O monumento está localizado no subsolo da Faculdade de Medicina da USP, em frente a sede do Centro Acadêmico.
Em 1964, militares tomaram o poder com a promessa de apaziguar uma suposta desordem política do país. Foram tempos difíceis. Apesar da dura repressão e do cerceamento da liberdade de expressão, manifestações civis marcaram o período. Entre os estudantes, não foi diferente. Muitos deles formavam a linha de frente de movimentos de luta armada contra o Regime, como a Ação Libertadora Nacional (ALN), que tinha entre seus integrantes alguns estudantes da Faculdade de Medicina da USP, dentre eles Gelson Reicher e Antônio Carlos Nogueira Cabral.
Diretores do CAOC, Gelson e Cabral engajaram-se na luta contra a repressão, sendo presos, torturados e mortos. Deram suas vidas na busca de um Brasil livre.
ANTONIO CARLOS NOGUEIRA CABRAL (1948 – 1972)
Estudante de medicina da Universidade de São Paulo, presidente do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz e militante da Ação Libertadora Nacional – ALN, Cabral foi morto aos 23 anos. Na versão oficial, a morte teria ocorrido após tiroteio quando o estudante tentou resistir à prisão, na casa em que morava. A vizinhança afirma que não houve tiroteio algum. O corpo de Antônio Carlos entrou no IML pela guia do DOPS, como desconhecido, morto ao reagir à prisão. Mais tarde, identificado por sua irmã, Cabral foi entregue à família no dia 19 de abril de 1972 em caixão lacrado com ordens expressas de não abri-lo.
GELSON REICHER (1949 – 1972)
Estudante de Medicina da Universidade de São Paulo e militante da Ação Libertadora Nacional - ALN, Reicher foi fuzilado em 20 de janeiro de 1972, aos 23 anos, por policiais pertencentes ao DOI-CODI/ SP. Gelson Reicher foi enterrado no Cemitério Dom Bosco, em Perus, sob o nome falso de Emiliano Sessa. O Relatório do Ministério da Marinha diz que Gelson “morreu em intenso tiroteio com agentes de segurança no dia 20 de janeiro de 1972, na altura do n° 800 da Av. República do Líbano, São Paulo, às 23:30 horas”. Conforme levantado pela Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos ficou comprovada a prática de tortura após os tiros, o que levou Reicher ao falecimento.
No dia 07 de dezembro de 2007, o Centro Acadêmico Manoel de Abreu, da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (rua Martinico Prado, 168) e a SEDH/PR inauguraram o memorial em homenagem a Chael Charles Schereier, 23 anos e Hiroaki Torigoe, 28 anos, dois estudantes da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, mortos durante a ditadura militar no Brasil.
Chael e Hiroaki decidiram pegar em armas depois que o AI-5, em dezembro de 1968, decretou o fim das liberdades democráticas no país. Foram mortos em datas e situações diferentes, por defenderem os mesmos ideais de liberdade.
CHAEL CHARLES SCHEREIER (1946 – 1969)
Paulista da capital cursava o 5º ano da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Integrante da executiva da União Estadual dos Estudantes participou ativamente das atividades do Centro Acadêmico e das passeatas históricas de 1968. Com a decretação do AI-5, em dezembro de 68, e o fim das liberdades democráticas, os brasileiros ficaram proibidos de se reunir nas ruas e as manifestações de qualquer ordem foram banidas. Uma parcela dos que lutavam contra a ditadura decidiu pegar em armas. Chael passou a atuar na clandestinidade. Foi preso em 21/11/1969, no Rio de Janeiro juntamente com Maria Auxiliadora Lara Bracelos, a Dora, e Antônio Roberto Espinoza, todos integrantes da organização Vanguarda Armada Revolucionária Palmares. Foram levados para o Batalhão da Polícia do Exército e Chael, aos 23 anos, morreu, no dia seguinte, vítima das torturas sofridas conforme depoimento de Dora e Espinoza. A versão oficial foi de morte por ataque cardíaco depois de reagir à prisão. O corpo do estudante foi entregue à familia em caixão lacrado. Militares acompanharam o traslado para São Paulo, proibindo a realização do ritual judaíco de sepultamento, que inclui um banho no cadáver, para que as verdadeiras circuntâncias de sua morte não ficassem evidentes.
HIROAKI TORIGOE (1944 – 1972)
Paulista de Lins, cursava o 4º ano da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Militava ativamente nas manifestações contra a ditadura militar instaurada em 1964. Com a decretação do AI-5 que fechou o Congresso Nacional, as Assembléias Legislativas, as Câmaras de Vereadores e o fim de toda e qualquer liberdade, Hiroaki atuou na clandestinidade, entre 1969 e 1970, ligado a organização ALN. Foi ferido e preso pelo DOI-CODI/SP, no dia 5 de janeiro de 1972, no bairro de Santa Cecília, em São Paulo. Tinha 28 anos de idade. Segundo a versão oficial foi ferido em tiroteio e morreu a caminho do hospital. No entanto, a fotografia de seu corpo localizada nos arquivos secretos do DOPS/SP denunciou as torturas a que foi submetido. Enterrado com nome falso, no Cemitério Dom Bosco, em Perus, seus restos mortais nunca foram resgatados. Num pequeno oratório na casa da familia, a foto de Hiroaki busca suprir a ausência de suas cinzas.
Em 28 de março de 2008, na Praça Ana Amélia (entre a av. Churchill e a rua Santa Luzia), no centro do Rio de Janeiro, foi inaugurada uma escultura em homenagem ao estudante Edson Luiz Lima Souto, morto pela ditadura militar, e a todos os que lutaram contra a ditadura militar e pela democracia no Brasil. A homenagem foi uma parceria entre a SEDH/PR, Prefeitura do Rio de Janeiro, União Nacional dos Estudantes – UNE – e União Brasileira dos Estudantes Secundaristas – UBES.
EDSON LUIZ LIMA SOUTO (1950 - 1968)
A morte do secundarista Edson Luiz Lima Souto ficou como grande marco histórico das mobilizações estudantis de 1968, que culminaram com a edição do AI-5 em dezembro do mesmo ano. O AI-5 decretou o fim das liberdades democráticas e das manifestações de qualquer ordem. Com 18 anos recém-completados, 1m59 de altura e armado apenas com o sonho de conquistar condições dignas na escola onde estudava, Edson foi morto com um tiro certeiro no peito, disparado à queima-roupa por um tenente da PM, em 28/03/1968, no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro. Indignados, seus colegas não permitiram que o corpo fosse levado ao IML, conduzindo-o para a Assembléia Legislativa em passeata. Lá, sob cerco de polícias civis e militares, foi realizada a autópsia e aconteceu o velório. O caixão chegou ao cemitério João Batista nos braços de milhares de estudantes.
Nascido em Belém do Pará, Edson era filho de Maria de Belém Souto Rocha. A família mesmo sendo muito pobre se empenhou para enviá-lo ao Rio de Janeiro, a fim de que concluísse os estudos secundários. Matriculou-se no Instituto Cooperativo de Ensino. Falava pouco e ainda estava meio desconfiado, mas colaborava com o movimento colando jornais murais. Estava programada mais uma passeata e Edson resolveu jantar mais cedo, naquele 28 de março, para ter tempo de preparar alguns cartazes. Segurava a bandeja na mão quando começou uma correria e ele foi atingido por um cassetete no ombro. Os policiais militares, que tinham invadido o local, começaram a atirar. Os estudantes armaram-se de paus e pedras para responder. Foi quando Edson caiu. Nesse dia o calabouço fechou para sempre.
Em 18 de julho de 2008, no largo de Osasco (SP) foi inaugurado o memorial em homenagem a três trabalhadores mortos durante a ditadura militar no Brasil. São eles: José Campos Barreto, João Domingues da Silva e Dorival Ferreira. Os três foram operários e militantes de organizações de esquerda. José e João Domingues, do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco e Dorival, do Sindicato da Construção Civil de Osasco. A obra foi feita em parceria com o Sindicato dos Metalúrgicos e prefeitura de Osasco para celebrar os 40 anos da greve que mobilizou 12 mil trabalhadores de algumas das principais fábricas da cidade, em 1968. Entrou para a história como “Greve de Osasco”. O movimento tinha como objetivo afrontar a ditadura no país e melhorar as condições de vida dos trabalhadores.
JOSÉ CAMPOS BARRETO (1946-1971)
José Campos Barreto foi morto em 17/09/1971, em Brotas de Macaúbas (BA), junto com o capitão Carlos Lamarca. Mais velho dos sete filhos de José de Araújo Barreto e Adelaide Campos Barreto, em 1964 mudou-se para São Paulo onde serviu o Exército, no quartel de Quitaúna. Estudou em Osasco, no Colégio Estadual e Escola Normal Antonio Raposo Tavares, tornando-se presidente do Círculo Estudantil Osasquense. Trabalhou como operário e foi importante liderança no Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco. Na Cobrasma, quando a fábrica foi cercada durante a greve de 1968, Barreto, de cima de um vagão, discursou aos soldados explicando as razões do movimento e conseguindo paralisar a tropa por um momento. Em seguida, ao ameaçar incendiar um tanque de combustível da fábrica, fez com que a tropa hesitasse, permitindo que muitos operários conseguissem escapar da polícia. Mesmo assim, cerca de 400 foram detidos. Espancado já no ato da prisão, José Barreto passou 98 dias entre os cárceres do DEIC e do DOPS, antes de ser libertado. Militou na VPR e depois no MR-8, na Bahia. Com a chegada de Lamarca ao Estado, foi designado para acompanhá-lo e com ele ficou até a morte. Lamarca e Barreto foram mortos por agentes do DOI-CODI da 6ª Região Militar, chefiados por Nilton de Albuquerque Cerqueira. A família ainda tentou localizar o corpo de Barreto, mas não teve informação sobre o local onde poderia estar enterrado e nem conseguiu seu atestado de óbito.
JOÃO DOMINGUES DA SILVA (1949-1969)
Os militantes da VAR-Palmares, João Domingues da Silva e Fernando Borges de Paula Ferreira, o Fernando Ruivo, foram interceptados por policiais civis na noite do dia 29/07/69, em São Paulo. Fernando teria morrido imediatamente e João Domingues, mesmo ferido, conseguiu escapar, refugiando-se na casa de sua irmã, em Osasco, onde foi preso no mesmo dia. Filho de Eliza Joaquina Maria da Silva e Antônio José da Silva, o operário João Domingues apoiou ativamente a greve de Osasco, em julho de 1968, que teve seu irmão, Roque Aparecido da Silva, como um dos principais líderes. A partir de então, por ser ameaçado constantemente de prisão, ingressou na VPR passando a atuar na clandestinidade. Nascido em Sertanópolis (PR), desde os 10 anos João Domingues ajudava o pai no trabalho com o gado. Aos 12 anos, trabalhava no matadouro de Ibiporã (PR) e, aos 13, num açougue, em Osasco. Militou nas organizações de esquerda Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e VAR-Palmares. Ao ser preso, foi levado para o Hospital das Clínicas, onde foi submetido a uma delicada cirurgia. Mesmo correndo risco de vida, agentes do DEIC – Departamento Estadual de Investigações Criminais – transportaram-no para o Hospital Geral do Exército, onde iniciaram um processo de interrogatório e torturas que culminou com a sua morte, em 23 de setembro.
DORIVAL FERREIRA (1931-1970)
Filho de Alvina Ferreira e Domingos Antonio Ferreira, nascido em Osasco (SP), Dorival militou na Ação Libertadora Nacional (ALN). Operário, era filiado ao Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de São Paulo, do qual foi candidato à presidência em 1965. Casado, pai de seis filhos, Dorival Ferreira morreu aos 38 anos, após ser preso pelos agentes do DOI-CODI/SP, que invadiram a tiros sua casa em Osasco. Na versão oficial, Dorival morreu em tiroteio, o que foi desmentido pelas provas que vieram do IML, da perícia técnica e do DOPS. Nas declarações do pai de Dorival – Domingos Antônio Ferreira –, prestadas ao delegado Edsel Magnotti, consta que ao chegar na casa do filho só encontrou policiais que lhe informaram da prisão, sem dizer para onde ele fora levado. Uma ficha originária do DOPS, com data de 30/04/1970, informa que Dorival Ferreira morreu em 03/04/1970, isto é, no dia seguinte à sua prisão.
Em 16 de agosto de 2008, no Parque do Zizo (município de São Miguel Arcanjo, SP) foi inaugurada uma escultura em homenagem ao estudante Luiz Fogaça Balboni, o Zizo - morto em 24 de setembro de 1969, durante o período da ditadura. O evento foi uma parceria entre a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República e a ONG APAZ - Associação Parque do Zizo. Participaram da homenagem, além de parentes, familiares de mortos e desaparecidos e representantes de entidades ligadas ao tema, o ministro Paulo Vannuchi e a senadora Marina Silva.
SOBRE O ZIZO
Luiz Fogaça Balboni nasceu em Itapetininga, em 25 de maio de 1945. Estudante da Escola Politécnica da USP, onde cursou até o 3° ano, trabalhava como professor e desenhista da Empresa Geotécnica. Integrou a organização de esquerda Ala Vermelha até março de 1969, quando passou a militar na Ação Libertadora Nacional - ALN. Foi morto em 24 de setembro de 1969 em emboscada montada pelos delegados Sérgio Paranhos Fleury, Rubem Tudunduva e Firminiano Pacheco, do DOPs, nas proximidades da avenida Paulista.
Passou a infância em São Miguel Arcanjo (SP), onde sua história se perpetua hoje no “Parque do Zizo” (seu apelido familiar), uma área de preservação ambiental que soma 300 hectares de Mata Atlântica original, implantada por seus irmãos com o dinheiro da indenização aprovada pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP).
Sobre o Parque do Zizo
A ONG APAZ - Associação Parque do Zizo conserva e mantém há mais de 10 anos um espaço dentro do maior remanescente da Mata Atlântica do país nos municípios de São Miguel Arcanjo e Tapiraí, estado de São Paulo, denominado Parque do Zizo. O projeto “Parque do Zizo” tem por objetivo abrir uma nova perspectiva para o desenvolvimento sustentável de áreas de conservação. O modelo desenvolvido ao longo dos anos está apoiado em dois pilares: na formação do novo, dos jovens, trabalhando conceitos de cidadania via educação ambiental, e na observação de aves e de outros seres vivos que habitam a floresta, catalogando sua presença e estudando seus hábitos.
Mais de 670 crianças já participaram do projeto “Aprendendo com a Natureza”, projeto executado em parceria com a Petrobras, onde a mudança nas atitudes e percepções em relação utilização de recursos naturais diretamente extraídos da natureza e no melhor tratamento aos animais silvestres são ensinamentos para sempre. Todos eles tiveram aulas sobre meio ambiente e cidadania.
Mais de 250 espécies de aves já foram identificadas nas áreas do Parque do Zizo, sendo 10 delas uma verdadeira raridade para os observadores de pássaros. Foi localizada também uma família de mono carvoeiros, o maior primata das Américas, que está sendo alvo de estudos e acompanhamento, via parceria com experientes biólogas. Onça parda, jaguatiricas, cachorros selvagens, e toda sorte de animais são vistos e catalogados no Parque, mostrando a riqueza da Mata Atlântica, na sua versão mais original.
EXPOSIÇÃO “A DITADURA NO BRASIL 1964 – 1985”
A exposição traz uma ambientação visual que conduz o público em uma espécie de “viagem no tempo”. Traz de volta a lembrança aos que viveram os fatos retratados e traduz aos jovens um pouco do clima vivenciado nesse período tão importante na história social e política brasileira. Recupera, de maneira exclusiva, desde os primeiros momentos do Golpe de Estado que mergulhou o país numa ditadura de 21 anos, até os grandes comícios populares das “Diretas Já”. Imagens marcantes dos tanques militares na frente do Congresso Nacional, as passeatas estudantis, a resistência dos diversos grupos da sociedade civil, a censura de documentos, a violência, prisões e torturas estão expostas em grandes painéis que colocam o espectador dentro dos acontecimentos. Junto, todos os fatos ocorridos nessa época são recuperados em um texto em ordem cronológica.
“A ditadura no Brasil – 1964-1985”, tem por objetivo registrar o que representou a ditadura no país, para que o maior número de cidadãos possam ter acesso ao material, excelente instrumento de valorização da história brasileira; resgatar a memória dos que viveram o período militar com o intuito de provocar reflexão sobre os acontecimentos e sensibilizar os jovens de hoje, a respeito do que ocorreu durante os anos de chumbo no país, a partir de uma perspectiva da cronologia histórica e visual incluindo fotos e documentos, inéditos em sua maioria. A exposição tem 90 metros de comprimento por 1,80 de altura. Trata-se de um formato flexível podendo ser dividida em blocos de metragem menor e variada.
Concebida originalmente para comemorar os 27 anos da promulgação da Lei da Anistia no Brasil, foi aberta ao público pela primeira vez, em agosto de 2006, no corredor de acesso ao plenário da Câmara dos Deputados, em Brasília.
Em 2007 numa parceria entre a SEDH/PR, Caixa Econômica Federal e Petrobrás, ela foi aberta ao público de quatro capitais brasileiras - Curitiba, Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador -, nos espaços culturais da Caixa, em datas alternadas, de maio a agosto de 2007.
Em dezembro de 2007 – quando se comemorou os 59 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos – foi realizada uma nova edição da exposição em oito capitais – Belém, Fortaleza, Recife, Belo Horizonte, Goiânia, Florianópolis, Vitória e Porto Alegre.
Em 2008 a mostra fotográfica já foi instalada em Osasco, na Universidade Federal de Goiás, em Goiânia, na Universidade Federal de Santa Maria (RS), nas celas do antigo DOPS, em São Paulo, em Buenos Aires (AR), em La Plata (AR), no terreno da sede da UNE, no Rio de Janeiro, na Câmara Municipal de Cachoeira do Sul (RS) e no Novo Shopping em Ribeirão Preto (SP).
EXPOSIÇÃO “APOLÔNIO DE CARVALHO – VALE A PENA SONHAR”
A exposição “Vale a Pena Sonhar” conta a trajetória de Apolônio de Carvalho, um revolucionário que lutou contra duas ditaduras no Brasil, na Guerra Civil Espanhola e na Resistência Francesa. Essa exposição foi colocada em 2007, no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. No próximo dia 23 de setembro, aniversário de três anos da morte de Apolônio, a exposição será aberta em Recife (PE).